Talento, Excelência, Inovação…

Dedico-me a tempo completo à investigação desde 1998, e durante todos estes anos não conseguim deixar de ser isso que se chama uma jovem investigadora. Como é óbvio, com 37 anos feitos o adjetivo jovem tem bem menos a ver com a biologia ou com a trajetória do que com a situação laboral. Este (aparentemente) inofensivo e até (supostamente) lisonjeador adjetivo é, de fato, a forma que o nosso sistema utiliza para disfarçar (e por tanto para não se responsabilizar) pola falta de um percurso claro para as pessoas que entram na carreira investigadora ou académica.

Digo investigadora ou académica porque, pessoalmente, não gosto de desligar as duas. Creio que docência e investigação ligam bem, som complementares em muitos aspectos, sempre que a combinação seja feita com lógica, o que em muitos casos não acontece. Um investigador brilhante numa área inovadora pode ver-se obrigado a leccionar aulas com um perfil conservador que não lhe permite transferir nada da sua pesquisa para benefício do seu estudantado, simplesmente porque a estrutura departamental não funciona corretamente. E este não é um caso hipotético.

Ultimamente escuta-se falar com insistência do talento, a excelência, a inovação, as avaliações, os fatores de impacto, os rankings. Seja dito que acho magnífica esta preocupação por altos valores como os referidos, mas a prática e a experiência demonstram que estamos perante elementos exclusivamente retóricos. Quando as pessoas responsáveis das gestão da investigação exibem estes conceitos –e refiro-me a conselheiros, secretários, presidentes e até reitores- não se percebe uma ética que os acompanhe, não há um conhecimento direto e alargado, já não apenas dos processos investigadores, mas da cultura científica contemporânea. Infelizmente, quando o nosso gestor descobre o último índice de classificação, e o abraça como uma verdade revelada, este está sendo já questionado por meia comunidade científica do outro lado do Atlântico.

E se isto acontece entre as pessoas que são responsáveis de traçar o rumo do nosso sistema investigador, quando falamos das pessoas que devem aplicar os critérios de excelência, a situação passa a ser trágica. As mudanças produzem-se de forma lenta nas instituições académicas, e pola própria (in)definição dos papéis de quem trabalha nelas –veja-se o que acontece com a aplicação do chamado Plano Bolonha- a adaptação a novas realidades é fundamentalmente orientativa, não existindo mecanismos eficazes para garantir a implementação de novos modelos.

E diria mais, as que eram em origem ferramentas com diversas utilidades –de orientar as compras de revistas científicas nas bibliotecas, a avaliar o rendimento anual de pessoal estável com vistas à incentivação da sua produção- convertem-se num objetivo em si mesmas. A investigadora ou investigador à procura da estabilidade laboral deve desenhar o seu curriculum já não em função do interesse previsto do seu trabalho, mas das portas que este lhe abra para publicar mais, com maior facilidade e para receber mais citações de colegas. Abrir novas linhas de pesquisa, inovar metodologicamente, é, em muitas áreas, um autêntico suicídio académico enquanto não se alcança uma posição estável.

E todo isto redunda no que, do meu ponto de vista, é um dos défices mais graves se falarmos de planejamento da investigação: a não criação ou mesmo a destruição das condições que permitem construir um sistema científico. Frente à ideia transmitida nos discursos combinados das nossas autoridades políticas e académicas, um sistema científico produtivo, eficiente e eficaz não se baseia na coincidência de um grupo de individualidades extraordinariamente talentosas, bem ao contrário, é alicerçado num sistema profissional, previsível e estável. Frente ao discurso que equipara a investigação a um desporto individual de elite, esta é mais bem desporto de equipa e de base. As medalhas de Usain Bolt não tornam a população jamaicana mais saudável, a existência (eventual) de instalações desportivas acessíveis, bem dotadas, permanentes no tempo, e utilizadas pola cidadania, si. Igualmente, não seria o acaso de um prémio Nobel (hipotético) o que faria bom o sistema científico galego, mais a existência de uma carreira científica clara, bem financiada, referenciada às necessidades da sociedade, que dotasse as investigações e a quem as desenvolve de uma estabilidade que ajudasse a não esbanjar dinheiros públicos, como acontece quando se cortam as carreiras das pessoas, ou estas são obrigadas uma e outra vez a adaptarem-se a processos de avaliação completamente diferentes cada poucos anos ou, o que é pior, processos em que a realidade e a retórica não caminham de mãos dadas, criando falsas expectativas e impossibilitando a planificação.

A solução aos problemas na investigação não está nos cortes nem numa concorrência suicida, mas na assumpção de que a política e a cultura científicas são essenciais para o desenvolvimento autónomo de uma sociedade, e de que, em consequência, só uma visão colectiva e altamente comprometida e profissionalizada do trabalho académico pode colocá-lo ao serviço da sociedade que o sustenta.

Publicado originalmente em Praza Pública.

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