Entrevista a Roberto Samartim em Irímia

Aproveitamos a publicação do livro Mudança política e sistemas culturais em transiçom na editorial Laiovento para conversamos sobre literatura, cultura e política com Roberto Samartim.

A tua obra propõe a ideia de que o que conhecemos como cultura galega atual foi configurada no teu período de análise, em que sentido?

Da análise desprende-se que na Galiza de 1974 a 1978 há elementos políticos e culturais que indicam isso mesmo, sim. Em muita síntese, no político a janela de oportunidade aberta pola morte do ditador em 1975 encerra com a Constituição espanhola de 1978, e fai-no no sentido da reforma e não da ruptura democrática com o franquismo, instaurando um regime autonómico caraterizado polo reconhecimento de um único sujeito político soberano (o “povo espanhol”) que cede graus variáveis de autonomia a comunidades como a galega (aqui mesmo antes da aprovação do próprio texto constitucional). Esse mesmo quadro político-institucional determina também o posterior funcionamento da cultura, fixando a atual cooficialidade subalterna para a língua galega ou a sua presença no ensino, por exemplo. No estritamente cultural, por seu lado, a rede institucional e normativa conformada nesta altura senta as bases da estrutura atual; e aqui destacaria a consolidação da língua galega como o material imprescindível para identificar a prática totalidade dos campos culturais analisados (por outras palavras, a literatura galega é agora aquela escrita unicamente em galego). A isto poderíamos acrescentar ainda que as estratégias de ação de grupos como Galaxia e a UPG na altura conduzem para a relativa centralidade verificável ainda na atualidade, o primeiro no espaço mais oficializado da cultura autonómica e o segundo no pólo da resistência nacionalista, ou que os termos dos futuros debates sobre o estándar ou sobre o discurso literário galego estão já colocados neste período.

Literatura, cultura e política conformam os eixos do teu trabalho, numa simbiose nova e escassa. Em que medida interagem entre eles?

Isso explica-se porque no livro aplicamos abordagens sistémicas e sociológicas, que colocam o foco nas relações entre os campos culturais e os campos do poder. Neste caso concreto, analisamos os programas e estratégias dos principais grupos que atuam no sistema cultural galego nesse período e verificamos que eles não têm presença apenas no campo literário, mas também agem noutros campos sociais (política, ensino, literatura, teatro, música, cinema, associacionismo, …). O trabalho faz um estudo relacional dos discursos e das ações destes agentes em todos esses campos, agrupando-os em função do impacto que neles tem a mudança política nos pólos da oficialidade, a resiliência e a resistência. Ao lado deste estudo das relações internas (e da estrutura do sistema e da sua organização e distribuição geo-espacial), o livro também aborda as relações que estes grupos estabelecem com os outros sistemas ibéricos.

Introduzes a palavra conflito num contexto, o cultural, que sempre trasladou a ideia de “estarmos todas trabalhando polo bem do País”?

Essa ideia deriva-se do estudo da bibliografia analisada no terceiro capítulo do livro, sim. Simplificando muito, por um lado, a historiografia literária agrupa em gerações indivíduos e a produção em géneros canónicos para estudar nela temas e estilos; por outro lado, o carácter nacionalitário é inseparável desde o século XIX da própria etiqueta de “história da literatura” (galega, espanhola, ou chinesa, tanto faz). Ora, um método empírico e relacional como o aplicado na tese de doutoramento que está na origem deste livro acaba por verificar que nem toda a gente se relaciona igual com a tradição, ou até que fronte a agentes que entendem que a literatura galega tem de estar escrita em galego e atualizar os eixos nacional e social há outros que defendem que a cultura galega pode ser veiculada tanto em galego como em castelhano se, neste último caso, atualiza elementos identitários de vário tipo, como o celtismo, o lirismo, a saudade etc.

Em que medida as propostas que saíram triunfantes desse conflito ajudaram ou não ao progresso do País? Desde a perspectiva que dá o tempo passado, como sociedade, escolhemos o caminho certo?

Neste sentido, aponto telegraficamente apenas três ideias inter-relacionadas, que acho o livro pode contribuir para explicar e desenvolver: para os grupos que ocupam as estruturas políticas do novo regime a defesa, o reforço e a continuidade da identidade diferenciada da comunidade galega não é um objetivo central (outros casos no Estado podem servir de comparação…). Os agentes que operam no sistema cultural galego têm um grau de autonomia relativamente baixo em relação com o poder político e não costumam arriscar a posição, isto acontece quer atuem no pólo mais oficializado da cultura autonómica, quer estejam referenciados no espaço ligado ao nacionalismo (com incidência também em concelhos ou deputações). Os materiais e os modelos com que estes grupos estão a configurar a identidade galega são relativamente dependentes e facilmente integráveis na cultura espanhola, e a posição atribuída à língua e a natureza do seu estándar servem de exemplo; abruptamente e parafraseando o clássico: se ainda somos galegos é por obra e graça dum idioma interferido e minguante.

Ao lado destes agentes, há também aqueles que acreditam na Galiza como sujeito político soberano, na autonomia dos campos culturais ou na utilidade da unidade linguística galego-portuguesa, mas por enquanto agem ainda na periferia.

A entrevista, assinada por José Antonio Martínez, foi publicada em Irímia. Asociación de Crentes Galegos.

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