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Entrevista a Carlos Pazos Justo: “Economia e turismo secundarizam papel cultural das comunidades locais nos Caminhos de Santiago”

As pesquisas realizadas por Carlos Pazos-Justo e as pessoas do grupo Galabra da Universidade do Minho com relação ao(s) Caminho(s) de Santiago são protagonistas do artigo “Economia e turismo secundarizam papel cultural das comunidades locais nos Caminhos de Santiago” de Daniel Vieira da Silva, publicado no Nós – Jornal online da UMinho, a 31 de janeiro de 2022.
Carlos Pazos-Justo liderou a pesquisa sobre o Caminho Português da Costa
Economia e turismo secundarizam papel cultural das comunidades locais nos Caminhos de Santiago
31-01-2022 | Daniel Vieira da Silva

Equipa do Centro de Estudos Humanísticos estuda a forma como o Caminho Português da Costa impacta as comunidades que atravessa.

Quando alguém pensa em fazer uma peregrinação, pode sentir “o chamamento” do Caminho de Santiago. Capaz de movimentar milhares de pessoas, estes assumem-se como ato de espiritualidade e não de fé. No litoral Norte português, o Caminho de Santiago inicia-se no Porto, faz-se pela costa e cruza dez municípios que têm dado cada vez mais importância a este atrativo turístico e económico na região.

A importância do Caminho de Santiago tem como data-chave o ano de 1993, quando a UNESCO o declarou Património Mundial. Em Portugal, o interesse intensificou-se a partir de 2010, sobretudo com o decreto-lei de 2019 a regular a valorização e promoção do Caminho de Santiago, através da certificação dos seus itinerários. “Isso levou a políticas públicas concretas, a outra visibilidade e, mais importante, a regulamentar o desenvolvimento em curso dos vários itinerários do Caminho de Santiago em Portugal”, diz ao NÓS o investigador Carlos Pazos-Justo, do Grupo Galabra do Centro de Estudos Humanísticos (CEHUM), afeto à Escola de Letras, Artes e Ciências Humanas da UMinho.

O doutorado em Ciências da Cultura pela UMinho tem investigado sobre o Caminho Português da Costa, um percurso de 149,5 quilómetros com início no Cais da Ribeira, no Porto e final na ponte metálica sobre o rio Minho, em Valença, cruzando ainda as localidades de Matosinhos, Maia, Vila do Conde, Póvoa de Varzim, Esposende, Viana do Castelo, Caminha e Vila Nova de Cerveira. A equipa do estudo integra ainda Álvaro Iriarte, Maria João Moreira e Inês Americano Lopes, tendo também o apoio de uma equipa transdisciplinar coordenada na Universidade de Santiago de Compostela (USC) por Elias Torres Feijó. O trabalho teve financiamento da Cátedra do Caminho de Santiago da USC.

Eurorregião, municípios e associações locais dão o mote

Os dez municípios que são atravessados pelo Caminho Português da Costa estão “fortemente envolvidos” desde 2010 com o projeto “Valorização dos Caminhos de Santiago”, financiado em larga medida com fundos europeus. “Para as câmaras municipais, a grande mais-valia é o desenvolvimento turístico-económico que este caminho pode alavancar e, com menor expressão, a valorização do património e cultura dos territórios atravessados por este território”, escl​a​rece Carlos Pazos-Justo.

No entanto, “a lógica eurorregional em construção favoreceu o desenvolvimento dos caminhos”, ou seja, “a cada vez maior inter-relação económica e institucional entre os dois lados do rio Minho significou um vento a favor para projetos como este”, contextualiza o investigador. Carlos Pazos-Justo acrescenta que “as iniciativas de desenvolvimento dos itinerários portugueses, em geral, partiram num primeiro momento de diversas associações, mas foram os municípios que, de forma coordenada em vários casos, protagonizaram o processo com notório êxito”. Isso ajuda a explicar o porquê de o Caminho Português da Costa praticamente não existir em finais do século passado, para, em 2019, ser “o que mais crescia na Europa em número de pessoas peregrinas”.

Evitar a “cultura dos passadiços” para enfatizar a cultura, religião e espiritualidadeO investigador do CEHUM considera ser “notório que o impulso central dos projetos de desenvolvimento nacionais dos Caminhos de Santiago é o turístico-económico”. Ou seja, o entendimento dado ao património e à cultura em geral é na lógica de serem “um ativo económico ao serviço da indústria do turismo”. Carlos Pazos-Justo apelida mesmo de “cultura dos passadiços” aquela que tem rodeado, em geral, as políticas culturais locais e regionais em Portugal.

Neste quadro, dimensões como o património, a cultura ou a religião e espiritualidade “parecem ser, na prática, dimensões secundárias” dos Caminhos. É contra esta tendência que algumas associações criadas em torno do Caminho se manifestam, apesar de reconhecerem um maior coordenação entre municípios desde o decreto-lei de 2019. “Uma espécie de corrida para a jacobeização de diversos territórios tem preocupado algumas associações, sendo um problema do crescimento e afirmação do Caminho Português da Costa”, diz Carlos Pazos-Justo.

Importância das populações locais secundarizada

Apesar de assumir não ter ainda no seio do seu grupo uma “resposta informada” sobre a relevância que o Caminho tem para as populações locais, o investigador da UMinho considera que “o bem-estar das comunidades locais não parece ser, em regra, um objetivo prioritário dos projetos de dinamização jacobeia como o implementado no litoral Norte”. Desta forma, explica que “a promoção menos planificada do turismo, dos caminhos, pode muito bem ter como consequência nos espaços citadinos outrora espaços de socialização das comunidades locais que passarão a ser usados massivamente por visitantes.” O especialista exemplifica com o que aconteceu em Santiago de Compostela, onde “a comunidade local, com os seus hábitos e práticas, é tendencialmente invisível para os visitantes” e teme que nos processos em curso de desenvolvimento dos Caminhos de Santiago em Portugal se esteja face a desafios similares.

“No Caminho Português da Costa, os indícios recolhidos apontam para uma secundarização das comunidades locais, tanto nas fases de planificação como de implementação das diversas iniciativas. Paradoxalmente, é significativa entre as entidades consultadas a crescente perceção deste itinerário como um elemento forte das identidades locais; isto é, as formas de usar os espaços, as dimensões afetivas e identitárias dos espaços impactados pelo Caminho poderão estar a ser alterados sem o concurso dos próprios afetados”, conclui.

Qual é a motivação do peregrino?As motivações para cumprir o Caminho de Santiago são bem diversas. Há quem o faça pelo prazer de caminhar, pela fé, pelo convívio, pela espiritualidade e até quem o percorra para… poder fumar. Carlos Pazos-Justo ouviu muitos peregrinos que lhe foram contando as suas histórias. “A literatura sobre o assunto identifica, em geral, uma tendência para a secundarização da motivação religiosa da peregrinação, ao passo que a motivação espiritual ganha peso”, explica ao NÓS, dando ainda conta que “estudos recentes destacam o lazer/turismo, a cultura ou o desporto como as motivações principais”. Essa é também uma das conclusões da investigação do Galabra/CEHUM: a espiritualidade, a cultura e o lazer ou turismo são as principais razões apontadas.

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