Ciência e Ativismo

Nos finais de junho participei no V Congresso Internacional de Turismo Crítico, organizado em Sarajevo pola CTS, associação académica internacional, programaticamente posicionada contra a linha dominante nos estudos do turismo, que assume maioritariamente os postulados da Organização Mundial do Turismo tanto na definição dos conceitos como numa perspectiva encorajadora do turismo como fenómeno fundamentalmente económico e positivo.

A escolha do lugar era uma declaração sobre a associação e o congresso, pois a cidade bósnia, onde as pegadas da guerra são evidentes, com alguma presença turística, mas fundamentalmente virada para os consumos e comportamentos locais, é também a capital de um país pobre, antiga cidade da efervescência cultural, que vê neste momento, segundo denunciado no congresso, como os seus equipamentos nesta área são sistematicamente fechados e desarticulados, e cujas autoridades não quigerom assistir ao evento.

O congresso, com 130 participantes de contextos culturais variados, com particular relevância anglossaxónica e asiática, foi salientável pola análise das conexões entre ativismo e profissão académica.

Esta mistura, no trabalho do grupo de investigação, sempre nos suscitara temores sobre como os posicionamentos políticos/ideológicos/cívicos particulares podiam interferir nos resultados da pesquisa, particularmente no terreno qualitativo e em áreas onde o processo científico está relativamente pouco estandardizado. No entanto, as discussões apontavam para outra direção: a responsabilidade académica em tornar em ativismo a defesa das conclusões, sobretodo quando estas são, como indicava C. Michael Hall na abertura, “de vida e ou morte”. Não se trata usar a investigação para fazer ativismo, mas fazê-lo a partir dela e graças a ela.

Na área dos estudos sobre turismo, fenómeno complexo, com incidência na economia, na cultura, na conformação das identidades, nas relações sociais e de género, na solução ou não de conflitos, nas alterações do clima, etc., a divulgação dos resultados é vital. Mas a responsabilidade vai além da divulgação: se os resultados que indicam que determinado fenómeno em determinado lugar provoca um efeito indesejado –e repare-se no que indesejado pode significar nesta área: destruição de habitats, expulsão de populações locais, pobreza, exploração sexual, ameaça para os equilíbrios sociais e culturais…-, publicar um artigo numa revista científica, ou apresentar um relatório num congresso é insuficiente. Qual é o papel, logo, da investigadora ou do investigador? E das instituições e organizações académicas a que pertence? Porque existe o risco –como aconteceu com as alterações do clima- de que o consenso académico não tenha reflexo na sociedade para a qual a academia trabalha.

Se no congresso esta posição despertou um acordo unânime, estando presente em quase todas as sessões, as implementações forom mais difíceis de visualizar. Propostas diferentes surgirom, mas poucas e sem consensos claros. Uma passava polo envolvimento individual nas ações e preocupações da comunidade –por exemplo, através das/dos informantes que colaboram na pesquisa- para depois devolver o aprendido em forma de pressão sobre as autoridades da instituição para que se trabalha; outra propunha a articulação das associações académicas internacionais como lobistas para condicionar, por exemplo, os medidores da produção científica, de forma a introduzir nestes as intervenções na comunidade-, entre outros.

Dous exemplos interessantes: segundo Ross Klein, todas as universidades norte-americanas introduzem nos seus planeamentos estratégicos o envolvimento com a comunidade, mas nem uma só considera estas atividades relevantes para a promoção ou estabilização das pessoas. Da investigação de Sally Everett e Tiffany Low desprende-se que a independência científica está seriamente ameaçada em lugares onde o financiamento privado é maioritário e não submetido a supervisão.

No grupo Galabra temos explorado, pola nossa parte, uma outra via possível para o envolvimento académico com a sociedade: a promoção e criação de spin-off’s. Estas servem para intervir no mercado com propostas fundamentadas em pesquisa em lugar de deixar que o mercado condicione as agendas investigadoras, mas esta, como as outras vias referidas é, por si só, insuficiente.

O debate internacional move-se num sentido claro: a academia não pode manter-se à margem dos problemas da sociedade em que se integra, e a forma convencional de traslado de resultados é insuficiente quando falamos da sobrevivência de pessoas e comunidades, porque é sobre isso que tratam a ciência e a investigação, e quanto mais conscientes do impacto dos fenómenos que estudamos mais claro tem de ser o envolvimento para a implementação dos resultados.

Publicado originalmente em Praza Pública.

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